Balada de uma Manhã de Inverno






Tinta-da-china preta e guache branco sobre papel cavalinho A3

[Origem] Esta banda desenhada ocupa um lugar especial nas minhas recordações.
Porque achei na altura que tinha atingido uma certa maturidade, tinha "subido um degrau". Porque resultou de uma partilha de aprendizagens feitas com o meu amigo Francisco Tropa, entre outros, na casa do nosso professor de artes Fernando Brito. Porque se revestiu de um carácter de criação artística, traduzida no grafismo a preto e branco assumido.

... e porque veio a ser premiada num concurso nacional de banda desenhada.
 
(Clicar nas imagens para ver mais e melhor)

            
Sinopse, guião e maquetes do layout, em sebenta A5

[Elaboração] Estávamos no final do Verão de 1985. Já tinhamos elaborado algumas histórias em conjunto para uns filmes a serem realizados em película super-8 no âmbito de trabalhos para as aulas de artes com o Prof. Fernando Brito, pelo que o tom já estava definido, uma história desprendida que levantava questões sem procurar dar-lhes resposta.
Lembro-me de escrever a sinopse e o guião a quatro mãos com o Francisco Tropa, em casa dele, em Santarém, ao som de discos dos Doors e de jazz...



Francisco Tropa: estudos para a personagem Wolfgang 
 
Estudos para a personagem Siegfred, tinta-da-china em papel cavalinho A4

  A ideia era que a história fosse escrita e desenhada pelos dois, e os estudos para as personagens e alguns desenhos iniciais assim o foram, mas indisponibilidade posterior do Francisco levou-me a assumir a totalidade do desenho de todas as pranchas.




Esquiços e rascunhos a lápis sobre papel cavalinho A4 e originais das pranchas 1, 3 e 4, tinta-da-china preta e guache branco sobre papel cavalinho A3

  No princípio, como nas minhas bandas desenhadas anteriores, o desenho era feito directamente no original, neste caso papel cavalhinho A3, primeiro a lápis e depois passado a tinta, com canetas de tinta-da-china. Retoques e efeitos como a chuva, eram feitos a pincel e tira-linhas com guache branco.
Ocasionalmente, para uma perspectiva mais elaborada ou o estudo de proporções das personagens num ângulo menos corrente, recorria a uma folha auxiliar, de um bloco de papel cavalinho A4, e fazia o desenho à parte que depois, por transparência no vidro de uma janela, passava para a respectiva vinheta no original. Assim aconteceu nas primeiras páginas.
Para além do que aprendi com o meu prof. Fernando Brito, os meus desenhos procuravam seguir as pisadas do trabalho de Edgar Pierre Jacobs, uma grande influência assumida.



Lápis sobre papel cavalinho A4 ou papel de máquina A4 e originais das pranchas 5 e 6, tinta-da-china preta sobre papel cavalinho A3

  Na quarta e quinta prancha o recurso a esse expediente intensifica-se e generaliza-se, com esquiços e rascunhos a aproveitar os espaços vazios das folhas auxiliares de um modo algo caótico.
E assim surgiu o método: a partir da sexta prancha passo a recorrer a folhas de papel de máquina A4, papel opaco de pouca gramagem com grande tranparência, que me permitem fazer várias passagens do desenho, com composição de vários planos e elementos de modo a obter o desenho final que é então vertido no original.
Um método que passo a adoptar daí para a frente na maior parte dos meus trabalhos, e que a partir de certa altura passou a incluir o recurso a uma mesa de luz, na verdade uma mesa de sala com tampo de vidro, com um candeeiro por baixo que havia na casa dos meus pais em Santarém.




Planificação abandonada da prancha 7, rascunhos a lápis sobre papel de máquina A4 e originais das pranchas 7 a 9, tinta-da-china preta sobre papel cavalinho A3

  Uma alteração na planificação da prancha 7 para dar mais espaço às vinhetas dedicadas ao sonho, permite ver uma fase do processo de desenho que teria sido diluída com a passagem a tinta.
Referência aqui também aos cenários interiores e objectos escolhidos que foram beber aos trabalhos do arquitecto Robert Mallet-Stevens, reflexo do contacto com as matérias aprendidas nas aulas de Artes Visuais, na escola secundária.
Nesta sequência pode também ser visto o trabalho elaborado para construção da cidade presente no sonho, cujo esforço se justificou pela sua utlização na segunda vinheta da prancha 8 e na última vinheta — panorâmica — da última prancha da história.




Rascunhos a lápis sobre papel de máquina A4 e originais das pranchas 10 a 12, tinta-da-china preta sobre papel cavalinho A3

  Na sequência do passeio diurno pela cidade de Santarém deserta, os cenários foram realizados com base em desenhos feitos no lugar ou a partir de fotografias, recursos que também se vão tornar recorrentes nos trabalhos posteriores.
Alguns são alvo de tratamento prévio ou sobre fotocópia, outros, que nos racunhos aparecem em branco, serão desenhados directamente a partir das fotografias.
De notar que as folhas de rascunho vão sendo utilizadas quer pela frente, quer pelo verso, conforme as necessidades, pelo que alguns desenhos surgem invertidos quando agora digitalizados, mas que para o uso à transparência da mesa de luz não fazia qualquer diferença.



  
  
     
Planificação abandonada da prancha 13, rascunhos a lápis sobre papel de máquina A4 e originais das pranchas 13 a 15, tinta-da-china preta sobre papel cavalinho A3

  Realizada a diferentes ritmos, em função dos tempos livres durante o meu 12.º ano, e com maior empenho durante o Verão de 1986 (começando os rascunhos a ser datados a partir de Setembro), depois nos fins-de-semana livres já no primeiro ano da faculdade, é nos últimos dias desse ano que a banda desenhada vê a sua conclusão.


   
Capa e folha de rosto da auto-edição de 1987

[Publicação] Concluída a obra, cedo comecei a pensar na sua edição, tendo um factor decisivo sido haver no centro de cópias da Faculdade de Arquitectura de Lisboa, onde eu estava a estudar, uma fotocopiadora a imprimir um negro imaculado, que permitia uma qualidade de reprodução da banda desenhada em óptimas condições.

     
Estudos para a capa: grafite sobre papel cavalinho A5
 
Desenho para a capa: tinta-da-china sobre papel cavalinho A3

  Fiz alguns estudos para a capa, tendo o desenho escolhido sido realizado nas mesmas dimensões que as pranchas originais, tinta-da-china sobre papel cavalhinho A3. Penso que o desenho perdeu um pouco na finalização, com o traço preto a não traduzir o efeito de profundidade e de névoa que estava patente no estudo escolhido, mas assim ficou. Outro dos estudos foi seleccionado para a folha de rosto, com a reutilização de uma vinheta da prancha 6.
A capa foi fotocopiada em papel cavalinho. Para o interior fiz a respectiva maquete do(s) caderno(s), com cópias reduzidas das pranchas já legendadas, coladas com fita-cola invisível, para fotocopiar frente e verso em papel normal.
Foram impressos 100 exemplares numa primeira tiragem, em finais de Maio de 1987, e tenho a vaga ideia de ter sido feita outra depois. Estes foram vendidos a 100$00 cada entre os colegas da faculdade e os amigos de Santarém. Alguns foram para ofertas a familiares.

   
Capa e página do editorial e índice do fanzine "Epitáfio" n.º 5, ano ii, Novembro 1991

  Quatro anos mais tarde, já depois de ter participado na 6.ª edição do Concurso Nacional de BD, organizado pelo Comicarte, fui contactado pelos editores dos fanzines "Simão" (do Porto) e "Epitáfio" (de Matosinhos) para publicar trabalhos meus, tendo esta história saído no "Epitáfio" n.º 5 (Ano II) de Novembro 1991, enquanto no "Simão" n.º 2, de Dezembro de 1991, foi publicada a história com que concorri a essa edição do concurso do Comicarte. A publicação desta história tinha sido anunciada no "Simão" n.º 1, de Setembro de 1991, para um número futuro, mas como entretanto saiu no "Epitáfio" já não foi publicada ali.



Diploma de atribuição do Grande Prémio do IV Concurso de Banda Desenhada Comicarte (Abril de 1987)

[Memórias] Com a BD concluída e a planear a auto-edição, também andava a pensar em submetê-la a um concurso de banda desenhada.
Depois de ter posto de parte alguns concursos de que fui sabendo, tomei conhecimento pelo Jornal da B.D. n.º 240, no seu Suplemento B.D. coordenado por Geraldes Lino, da realização do 4.º Concurso de Banda Desenhada COMICARTE, com submissão dos trabalhos até 14 de Abril de 1987. Mais do que os prémios (Grande Prémio de 30.000$00 e outros três prémios de 10.000$00) o argumento principal que me convenceu a concorrer foi referirem que os trabalhos seriam devolvidos aos seus autores, desde que estes os solicitassem.
Foi com uma enorme alegria que soube que tinha sido distinguido com o Grande Prémio, e no dia 25 de Abril lá me meti no comboio para o Porto, para ir receber o prémio na Casa Tait, onde os trabalhos concorrentes estavam em exposição (entre 21 e 25 de Abril). Aí conheci Paulo Amorim, membro do júri em representação do Comicarte, que me contou que não tinha sido unânime a decisão do júri (composto ainda por Martins Rocha (Edinter), Albuquerque Mendes (FAOJ), Jorge Pereira (Odin), Arlindo Fagundes (autor de BD) e Eduardo Pais Barroso (crítico de BD)), o que em nada reduziu o valor que o prémio teve para mim.
Depois, algumas páginas desta BD fizeram parte de algumas exposições, entre as quais a exposição colectiva "MásCriações" nas II Xornadas de Banda Deseñada de Ourense, na Galiza, e no Encontro Luso-Galaico de BD, no Porto, organizadas pela Casa de Juventude de Ourense e pelo Comicarte, em 1990, altura pela qual eu perdi o paradeiro da página 2, cujo original ficou em parte incerta.

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