As Fiandeiras

     
     
Impressão offset a 4 cores, A4

[Origem] Eu tinha concorrido ao VI Concurso Nacional de BD, organizado pelo Comicarte / Comissão de Jovens de Ramalde, do Porto, no qual não fui distinguido com nenhum prémio, mas durante a exposição integrada no Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto fui apresentado ao Sr. Francisco Linhares, das Edições ASA, que estava à procura de um jovem autor para ilustrar uma série de contos tradicionais com argumentos adaptados por Jorge Magalhães.
 

     
Guião de Jorge Magalhães, A4, dactilografado 
[Elaboração] Desenhar contos tradicionais portugueses não estava certamente nos meus planos, mas a possibilidade de vir a publicar qualquer coisa em álbum, e pelas Edições ASA — editora que estava a apostar na edição de banda desenhada de autores portugueses — e ainda por cima a oportunidade de trabalhar com esse argumentista de referência da história da BD portuguesa, Jorge Magalhães, era algo que não podia deixar de aproveitar.
Não sei se foram contactados outros desenhadores mas o trabalho foi-me atribuído e seguiu-se a marcação de um encontro com Jorge Magalhães, no princípio de Novembro de 1989, na estação de comboio de Cascais, onde ele me foi buscar e levou até sua casa. Aí conheci Catherine Labey que tinha desenhado o primeiro volume da colecção em que eu ía participar, do qual me ofecereu um exemplar, conversámos sobre banda desenhada e foi-me apresentado o guião da primeira história.
Falámos também sobre o que iríamos receber a título de direitos de autor, conforme ficou anotado no verso da última página do guião: 10 % sobre o preço de venda ao público a dividir na proporção de 3 % para o argumentista e 7 % para o desenhador, e que receberíamos em adiantamento 15.000$00 por página a dividir na mesma proporção, ou seja pela primeira banda desenhada que ía publicar fui pago a 10.500$00 por página (cerca de € 52,50).

    
     
Esferográfica preta sobre papel A4
  Seguindo o guião, fiz a minha proposta de planificação, fiel às indicações do argumentista, e introduzindo desde logo uma grande quantidade de informação visual para caracterização dos cenários, em parte também para causar boa impressão quando os fosse mostrar ao Jorge Magalhães.
Em paralelo, fiz vários esboços de procura e caracterização das personagens, e experiências de desenho do texto do título da história, tomando como base os alfabetos de um catálogo de letras decalcáveis da Mecanorma que eu tinha.
Em finais de Novembro, com o trabalho em condições de ser discutido, combinei novo encontro com Jorge Magalhães, desta vez — e daí para a frente — num dos restaurantes do Parque Mayer, em Lisboa. A minha proposta foi aprovada sem reparos de assinalar e com palavras de encorajamento para a fase seguinte.


     

     
Esferográfica preta sobre papel A3
  A partir deste ponto passei a trabalhar no formato A3. Comecei por fixar uma grelha para servir de matriz geométrica às dimensões das vinhetas, e assim conseguir relações de proporção entre elas, e que resultou da avaliação das necessidades sentidas na elaboração do primeiro esboço.
Sobre uma mesa de luz improvisada, o desenho de cada página foi apurado em várias passagens, no mínimo duas para os cenários e três para as personagens e às vezes mais para outros elementos onde senti maiores dificuldades, do rascunho ao desenho das vinhetas completas sem texto.
Os textos foram posteriormente compostos à parte em conjunto com os balões, com letra desenhada à mão.
Para os cenários e ambientes fui buscar referências às minhas memórias da terra da minha mãe, no Algarve, bem como de experiências nas terras da lezíria e do Alentejo por onde já tinha passado, na procura de corresponder à sugestão do título do álbum "Contos do Sul".
Esta fase ocupou-me todo o mês de Dezembro.

     
     
Canetas de tinta-da-china preta sobre papel cavalinho A3

  Para os desenhos finais substituí a esferográfica preta pelas canetas de tinta-da-china e o papel de máquina por papel cavalinho. Comecei pelos limites das vinhetas e pelos balões e respectivos textos e, sempre com a mesa de luz, passei os desenhos a limpo, trocando de caneta consoante pretendia um traço mais grosso para um contorno a destacar, ou mais fino para pormenores ou planos de fundo. Um desenho de linhas claras, sem manchas de preto, pronto para vir a receber cor.
Em finais de Janeiro de 1990 voltei a encontrar-me com Jorge Magalhães para apresentar o trabalho finalizado, a tempo de ainda ser feita alguma correcção antes de enviar para a editora, o que não foi necessário. E recebi nessa altura o guião da história seguinte.

  
 
Os "azuis" enviados pela editora e experiências de cores com ecolines sobre fotocópias em papel A4

  Algum tempo depois, já não sei precisar quanto, recebi da editora as impressões em papel de boa gramagem, em A4, os chamados "azuis", acompanhados pelos respectivos fotolitos do preto (acetatos). Nesta altura é que tive a sensação de estar verdadeiramente em ambiente profissional: os "azuis" são impressões dos originais em ciano — daí o seu nome — que depois de coloridos permitem a separação das cores por meios fotográficos, sem a interferência do preto, que já está autonomizado — o fotolito que veio a acompanhar, e que permite por sobreposição apreciar o resutado final.
Antes de me abalançar a pintar os "azuis", comecei por fazer várias experiências sobre fotocópias. Pretendia cores "naturais" e um resultado luminoso, novamente em função das minhas memórias e experiências pessoais. Para os cenários, um verde água para o tecto da casa e móveis pintados da loja, castanhos e laranjas para as madeiras, encarnados para as tijoleiras e telhados, amarelo ocre para as paredes da loja, rosa para as paredes da casa com pátio do comerciante, azul para as barras e molduras das casas, etc.. Em relação às personagens, destaque para as três velhas que recebem cada uma as três cores primárias RGB, à semelhança de várias personagens Disney, cuja influência Jorge Magalhães me disse reconhecer no meu trabalho.
Fiz experiências também com sombreados a cinzento para dar mais volume e profundidade às personagens e aos cenários da acção.
Foi a minha primeira experiência de colorir uma banda desenhada com aguarelas líquidas Ecoline.

(Clicar nas imagens para ver mais e melhor)



Contos do Sul, Edições ASA, A4, capa dura, 48 p. a cores

[Publicação] Primeira das sete histórias publicadas no álbum "Contos do Sul", páginas 3 a 8, das Edições ASA (1993), terceiro da colecção "Contos Tradicionais Portugueses em banda desenhada", todos com argumentos de Jorge Magalhães e desenhos de Catherine Labey (o primeiro, "Contos de Entre Douro e Minho"), José Abrantes (o segundo, "Contos do Nordeste Transmontano"), Eugénio Silva, José Garcês, Catherine Labey e Carlos Alberto Santos (o quarto, "Contos das Ilhas").


O autor a colorir as pranchas da banda desenhada
[Memórias] Quando consegui esta oportunidade de desenhar um álbum de banda desenhada, eu estava a frequentar o quarto ano do curso de Arquitectura na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, situação que condicionava o tempo que podia dedicar à sua execução e da qual dei conhecimento a quem me lançou o desafio.
A estudar em Lisboa e a morar em Santarém, fazia o percurso de comboio todos os dias, pelo que só à noite e aos fins de semana, e nas férias de Natal, trabalhei na elaboração desta banda desenhada, ao longo de cerca de dois meses e meio para seis páginas.
Onde atrás falo de uma mesa de luz improvisada, refiro-me a uma mesa da sala com tampo de vidro de que me apropriei durante bastante tempo, sob a qual coloquei um candeeiro e onde sentado no sofá eu trabalhava. Se não precisava de mesa de luz, o candeeiro passava para cima da mesa e continuava o trabalho.
No final, num tempo em que ainda não havia a facilidade das fotocópias a cores ou digitalizações, para ficar com um registo do trabalho realizado, principalmente no que respeita à coloração, tirei fotografias do conjunto das páginas e comparativas das experiências de cor com os azuis e os fotolitos mas os diapositivos não ficaram nada de jeito. Mais uma vez, não tinhamos o imediato do digital e só depois de vir a revelação, não sei quanto tempo depois, é que se via o resultado e já era tarde para repetir...

Editado em 2021.08.06: Acrescentada a imagem do rascunho isolado do interior da loja na terceira vinheta da segunda página, encontrado no diário gráfico em uso naquela altura (imagem visível apenas quando se clica nas imagens)

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