When Nemo met Siza
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| Tinta da china e ecolines sobre papel A3 |
| [Origem] |
Começo com uma homenagem a Geraldes Lino (1936-2019). Foi em resposta a (mais) um desafio que me lançou que este trabalho surgiu. Aproximava-se o centenário da primeira publicação de Little Nemo in Slumberland, de Winsor McCay, em 15 de Outubro de 1905, e Geraldes Lino quis assinalar a efeméride com a edição de um novo fanzine, a que deu esse nome, e lembrou-se de mim, entre vinte e um autores, para criar uma prancha. |
![]() Esboço a esferográfica em caderno A4 |
![]() Rascunho a lápis e esferográfica sobre papel de máquina A3 |
| [Elaboração] |
Desde logo, entre várias possíveis, a minha abordagem foi
fazer à maneira de, num exercício de virtuosismo ou versatilidade
que não domino, mas que achei passar o desafio também por aí. Para além de celebrar Winsor McCay e Little Nemo (do qual alguns anos antes eu já tinha feito a reprodução de uma prancha como mero exercício), quis também prestar homenagem ao grande vulto da arquitectura portuguesa dos séculos XX-XXI que é Álvaro Siza, numa união de dois universos que me são muito queridos, banda desenhada e arquitectura, e a que as histórias do Little Nemo não são estranhas, considerando a importância que os cenários arquitectónicos desempenham nas suas aventuras. |
![]() Plano do sonho |
![]() Plano do despertar |
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Como a maior parte das aventuras de Little Nemo, a história
desenvolve-se em dois planos principais. O primeiro é o plano do sonho e
o segundo é o plano do despertar de Nemo, quase invarialvelmente, como
aqui, o último quadradinho. No plano do sonho temos um crescendo com a chegada dos vários amigos de Nemo, da banda e da polícia de Slumberland, acompanhada pelo esticar da cama que, com a quantidade de gente em cima, vai vergando ao peso. Esta deformação provoca a alteração dos limites dos quadradinhos, com a consequência final "fora do sonho" na penúltima vinheta. |
![]() Plano do "nosso tempo" |
![]() Plano "fora da página" |
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Aqui é introduzido um terceiro plano da acção, que corresponde ao século
XXI do título, o do "nosso tempo", com a representação do Pavilhão de
Portugal no Parque das Nações, em Lisboa, obra projectada por Álvaro
Siza para a Expo'98, com a "pala" ligeiramente mais curvada, em
resultado da transformação da cama durante o sonho, facto que os
transeuntes parecem não notar. A estes planos, acrescento ainda um quarto, um plano "fora da página", onde se desenrola a intervenção do arquitecto Álvaro Siza, que anda sobre os quadradinhos e assim tem uma visão global sobre tudo o que se passa, percepção total que só Nemo partilha, e daí surge o diálogo entre os dois. Os três planos "dentro da página" são herméticos, não se apercebendo as restantes personagens do que se passa fora dos seus respectivos palcos. Para a fixação e correcção do texto em inglês contei com a preciosa colaboração do meu irmão Gonçalo. |
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Testes de cor sobre impressões em papel A4
| A aplicação de cores também procura fazer a distinção entre os vários planos da acção, contrastando os "tradicionais" com os que são "inovação". Os primeiros em cores mais quentes e alguma fidelidade às cores das personagens originais. O do "nosso tempo" em tons mais frios e naturais a condizer com o cenário de exterior. O último com cores mais escuras e sombras projectadas sobre a folha de papel, procurando acentuar essa terceira dimensão que se pretende transmitir. |
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Uma última nota para chamar à atenção para dois pormenores no título
(que reproduz o cabeçalho do jornal onde originalmente foram publicadas
as histórias de Little Nemo, para acentuar a ideia de página sobre a
qual surge Álvaro Siza). O primeiro é a data que aí surge, não o dia 15
de Outubro de 2005 em que se completaram os cem anos sobre a primeira
publicação, mas sim o dia 16 de Outubro, por este calhar a um domingo,
dia em saiam estas histórias. O segundo é uma pequena referência ao
encomendador deste trabalho. |
![]() Fanzine Efeméride #1, A3, brochado, 40 p. a cores |
![]() Serigrafia, mancha A3 a cores sobre papel 50 x 70 cm |
| [Publicação] |
Com data de lançamento a 15 de Outubro de 2005, o Efeméride nº 1 é um
fanzine de luxo. Em formato A3, com 40 páginas e capa a cores, e uma
tiragem de 100 exemplares, onde se reúnem os trabalhos de dezoito
autores que responderam ao repto de Geraldes Lino, depois de algumas
desistências e substituições, e que são (por ordem de publicação):
Ferrand, Zé Manel, Ricardo Cabrita, J. Morim, C. Moreno, José Carlos
Fernandes, Manuel João Ramos, Susa Monteiro, J. Coelho, Pepedelrey, Rui
Lacas, Paulo Monteiro, J. Mascarenhas, Mota, Carlos Marques (que também
fez a capa), Álvaro, M. Souto e Pedro Nogueira, e dos quais inclui uma
síntese biográfica. |
Dia 30 de Outubro de 2005 no XVI Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora
| Os trabalhos publicados integraram a exposição "Sonhos de Nemo no Século XXI" que esteve patente ao público no XVI Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, cujo tema era o "Sonho", de 21 de Outubro a 6 de Novembro desse ano, na nave comercial da Estação de Metropolitano Amadora/Este (Falagueira). No âmbito desta exposição participei numa sessão de autógrafos durante o festival. |
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No final de 2008, por iniciativa da minha irmã Vera e do amigo Laurent,
em parceria comigo e os meus irmãos, foi feita uma edição deste trabalho
em serigrafia, com uma tiragem de 100+10 exemplares, mancha A3 sobre
papel com 50x70 cm, para a qual foi incluída uma nota de rodapé com a
tradução dos diálogos de Álvaro Siza para inglês, uma vez mais com a
ajuda do meu irmão Gonçalo. Esta serigrafia esteve à venda na loja do Museu de Serralves e na Casa da Arquitectura, e pode ainda ser adquirida junto do autor, pelo valor de € 70,00. |
Momento na visita de Álvaro Siza à exposição de trabalhos seus em que depara com a serigrafia "When Nemo met Siza"
| [Memórias] |
«Caro Ricardo Cabrita. Acabo de ver a sua versão de "Sonhos de Nemo
no Século XXI", e fiquei altamente impressionado, em termos gráficos
(outra coisa ñ esperava de si). Como não tem ainda texto, fiquei sem
saber o argumento.
(...)
Assim que lhe for possível enviar-me uma cópia em papel (só a preto e
branco) com os diálogos à parte, será óptimo. Poderei analisar o
conjunto e dar-lhe uma opinião mais completa, e depois combinarmos a
forma de me fazer chegar a bd, se possível em cópia digital e em CD.
De qualquer maneira, ñ tenho dúvida da excelência da realização no que
concerne à sua bd autoconclusiva dedicada à obra-prima original de
Winsor McCay. Um abraço e saudações bedéfilas. Geraldes Lino» (e-mail de 21-07-2005) Para além do imenso gosto que me deu fazer esta página de banda desenhada, a sua difusão também me trouxe momentos memoráveis. Logo em Outubro de 2005, enviei uma cópia da página da banda desenhada acompanhada por uma carta ao arquitecto Álvaro Siza, a dar conta do desafio e do seu papel no resultado apresentado, e endereçando-lhe o convite para visitar a exposição no Festival de Banda Desenhada da Amadora. Não obtive resposta, como de resto já esperava. Mas cópias da prancha começaram a circular, e um amigo da minha irmã, Dominique Machabert, que foi fazer uma entrevista a Álvaro Siza levou uma dessas cópias e em resultado dessa conversa trouxe a notícia de que o arquitecto gostaria de me conhecer. O encontro deu-se nos últimos dias de Julho de 2006, no seu atelier, na Rua do Aleixo, no Porto, ao qual fui com a minha irmã e o Laurent. Levei, para lhe oferecer, um exemplar do fanzine Efeméride, e falámos de banda desenhada e arquitectura. Disse-me que já conhecia Little Nemo, e outras BDs que lia no Primeiro de Janeiro. Conversámos sobre arquitectura e sobre os problemas que tinha (também ele!) com alguns clientes e projectos. É engraçado que tenha sido graças a um trabalho de banda desenhada que, sendo arquitecto, eu tenha tido a oportunidade de conhecer pessoalmente esta grande figura da arquitectura mundial, e que é, também, uma excelente pessoa. Voltámos a encontrar-nos a 7 de Novembro de 2010 em Abrantes. O Núcleo do Médio Tejo da Ordem dos Arquitectos, do qual fazia parte, organizou a vinda da exposição "Álvaro Siza - Obra, Vontade e Desenhos", à Galeria Municipal de Arte de Abrantes. A exposição já tinha encerrado no dia 5, mas o seu comissário, o arquitecto Carlos Castanheira, tinha conseguido agendar uma visita de Álvaro Siza para esse dia, um domingo. Após o reencontro com o seu colega de Abrantes, arquitecto Duarte Castel-Branco, e a recepção oficial à Galeria, reconheceu a banda desenhada na serigrafia que aí se encontrava à venda, onde trocámos algumas palavras. Depois prosseguiu para a visita à exposição de trabalhos seus. Mais tarde, durante o almoço que se seguiu, ofereci-lhe uma das provas de autor da serigrafia emoldurada, corolário destes encontros. A Geraldes Lino já tinha oferecido a prova de autor I/X da serigrafia em Agosto de 2009, por ocasião da Tertúlia de BD de Lisboa desse mês, uma pequena retribuição minha a todo o apoio e incentivo que me transmitiu. Por fim, este trabalho, realizado no Verão de 2005, marcou o início de um período bastante fértil (até cerca de 2011) em que tive a oportunidade de executar uma boa quantidade de bandas desenhadas, todas para publicação. |
| Editado em 2021.08.12: | Acrescentado o video XVI Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora |













