Fernando Lopes-Graça: Tomar
![]()
|
| Desenhos digitais, cores CMYK, 3780x4961 pix |
| [Origem] |
Já tinha feito a banda desenhada "Palhinhas - uma história da palha de Abrantes" para a TAGUS, onde trabalhava o meu colega e amigo Rui Serrano, autor do projecto da Casa-Memória de Fernando Lopes-Graça em Tomar elaborado no âmbito das comemorações do centenário do seu nascimento, e ele disse-me que a Câmara Municipal de Tomar pretendia publicar uma banda desenhada no mesmo âmbito e que andavam à procura de alguém que a pudesse fazer, e aconselhou-me a enviar-lhes uma proposta. E assim fiz. |
Guião |
| [Elaboração] |
Após os primeiros contactos em Setembro de 2005, em meados do mês seguinte enviei a minha proposta para a Câmara Municipal de Tomar, acompanhada por um pequeno portfolio com uma amostra dos meus trabalhos mais relevantes (à data). Nela solicitava a disponibilização de informação biográfica e de enquadramento histórico, com ênfase na documentação iconográfica e fotográfica, bem como o apoio de algum investigador sobre a vida e obra do Maestro para garantir o rigor histórico. A dimensão da história seria determinada em função da maior ou menor riqueza dos acontecimentos da vida de Fernando Lopes-Graça e da informação disponível acerca deles, apontando desde logo para as trinta ou as quarenta e seis páginas, para as quais apresentei o valor de cem euros por cada página a cores, e o prazo de vinte e cinco a trinta semanas. Em Janeiro de 2006 a proposta foi aceite para uma história com trinta páginas. No entanto, os elementos fornecidos para elaborar o argumento revelaram-se manifestamente insuficientes, pelo que tive de iniciar o trabalho de recolha de informação e documentação necessários, na maior parte a partir da internet, mas também em visitas aos locais relevantes para a história, nomeadamente Lisboa, Parede e Tomar. Além disso, fui adquirindo vários livros de Fernando Lopes-Graça e sobre a sua vida e obra que, sendo o ano do centenário do seu nascimento, foram publicados ao longo desse ano. Assim, o primeiro guião suficientemente estruturado e em condições de permitir avançar para a concepção gráfica só foi apresentado em meados do Verão para aprovação, precedido da seguinte sinopse, que veio a ser incluída na contra-capa do livro publicado: Vida (e obra) do compositor e maestro Fernando Lopes-Graça contada por capítulos, cada um sobre uma das facetas mais importantes do artista. O desafio consiste em resumir uma vida inteira, tão rica, em episódios coerentes e com uma continuidade temporal mais controlada, de modo a evitar a solução óbvia de coser uma manta de retalhos com todos os factos e momentos daquela vida, antes procurando uma sequência da linha de acção que consiga prender a atenção do leitor. Ambiciono conseguir, em Banda Desenhada, uma homenagem digna da grande personalidade que é Lopes-Graça, que explore as potencialidades narrativas próprias deste meio de expressão, um pouco como o compositor explorou as potencialidades da música, salvaguardadas as devidas distâncias. Cada um destes capítulos teria quatro páginas, resultando no aumento do número de páginas para trinta e duas (sem que o valor do pagamento do trabalho sofresse qualquer alteração), identificados que foram oito temas principais a explorar, o primeiro dos quais a infância e juventude na sua terra natal, por isso mesmo intitulado "Tomar". |
![]()
![]()
![]()
|
Várias fases do desenho das páginas
|
Esta foi a primeira banda desenhada que fiz totalmente em suporte digital, pelo que revela bastantes sinais dessa aprendizagem, quer das ferramentas que o software me punha à disposição e que fui descobrindo à medida que o trabalho avançava, quer da dificuldade de desenhar indirectamente na mesa digitalizadora com uma caneta (como um rato) cujo resultado ia aparecendo no ecrã. A opção de passar a fazer neste novo meio vem no seguimento da realização de trabalhos desenhados em papel, digitalizados e coloridos no computador, e de ter percebido que deste modo me era mais fácil fazer a sobreposição das várias fases de desenho sem ter de recorrer a uma mesa de luz, de que não dispunha. Foi uma evolução técnica mas com a manutenção do método de trabalho, que consistia em começar com esboços das páginas e depois fazer sucessivos rascunhos de aperfeiçoamento do desenho até chegar ao traço final. Outra coisa que mantive, foi a adopção de uma geometria de base para estrutura das vinhetas nas páginas, neste caso uma quadrícula de 3x3 que se adaptava à intenção de evocar um álbum de fotografias, dado que este capítulo tratava das mais antigas memórias de Lopes-Graça. O desenho pretendia-se claro e legível, realizado quando necessário e possível sobre fotografia e elementos documentais. O título de cada capítulo é complementado com um subtítulo que pretende reforçar a unidade da obra e sequência dos vários capítulos, e uma vez que a história é sobre a vida de um músico achei que se adequava adoptarem a forma de andamentos. Este primeiro esteve para ser o andamento inicial, mas como nele não se fala ainda de nenhuma composição do próprio, aquele foi substituido por um introitus: a descoberta de "La Mer" de Debussy, de que uma citação das memórias do próprio Lopes-Graça abre o capítulo. A experiência desta descoberta da obra "La Mer" traduz-se na primeira tentativa de representar a dimensão sonora e musical nesta banda desenhada, recorrendo ao desenho de uma onda replicada da estampa "A grande onda de Kanagawa" de Hokusai — desenho que ilustrou a capa da edição da partitura de Debussy em 1905 — que sai de um radiorreceptor, primeiro, e de um piano, no fim do capítulo. Uma nota para o pormenor da imagem do radiorreceptor que, não tendo eu qualquer descrição ou documento sobre aquele em que Lopes-Graça ouviu aquela obra pela primeira vez, me obrigou a fazer uma pesquisa dos modelos existentes à época e optar pelo que me parecesse ser menos anacrónico. |
|
Várias fases da coloração das páginas
|
A escolha das cores pretende reforçar a evocação de fotografias antigas e por isso optei pela utilização de tons de sépia e amarelados de papel envelhecido, e que também conferem ao capítulo um tom melancólico. Uma excepção foge a esta regra que corresponde à utlização dos azuis na onda do mar que representa a música que se está a ouvir, conferindo o contraste adequado para retirar esse registo da realidade em que se passa a acção, e procurar dar-lhe uma outra dimensão, a da música, dificilmente representável em desenho. Posteriormente, confrontado com informação mais rigorosa ou em resultado da revisão a que o trabalho foi sujeito, houve a necessidade de corrigir dois desenhos: a sexta vinheta da primeira página representava dois irmãos de Fernando Lopes-Graça, um dos quais nasceu depois dele, passando a figurar a sua irmã um pouco mais velha e que viria a falecer com onze anos; e a quinta vinheta da segunda página para corrigir a ilustração do edifício onde se localizava o quartel-general da 7.ª Divisão Militar de Tomar. (Clicar nas imagens para ver mais e melhor) |
Fernando Lopes-Graça - Andamentos de uma vida, Câmara Municipal de Tomar, A4, capa mole com badanas, 44 p. a cores |
| [Publicação] |
O lançamento deste livro estava programado para o dia do centenário do nascimento de Fernando Lopes-Graça no dia 17 de Dezembro de 2006, mas nessa data este era o único capítulo da banda desenhada que se encontrava concluído, a que se juntava o princípio do segundo andamento (3.º capítulo). Não deixei por isso de estar presente nas comemorações realizadas, dia em que foi lançado e adquiri o livro "A Construção de uma Identidade - Tomar na vida e obra de Fernando Lopes-Graça" de António de Sousa, peça fundamental para completar e conferir um maior rigor ao guião ainda em aperfeiçoamento. |
| [Memórias] |
Eu já conhecia algumas obras de Fernando Lopes-Graça graças ao Coro do Círculo Cultural Scalabitano no qual o meu irmão mais velho, João, a que se juntaram depois a minha mãe e os meus irmãos mais novos, Gonçalo e Vera, todos aí cantaram durante alguns anos, e cujo repertório incluia diversas das suas peças corais, entre Heróicas e harmonizações de Canções Populares Portuguesas. Neste coro cantava também aquela que foi a meu primeiro amor (platónico). Por isso foi com um misto de entusiasmo e sentido de responsabilidade que abracei a oportunidade de fazer uma banda desenhada sobre este artista, e que me levou a conhecer com maior profundidade a sua vida e obra. Cabe aqui um especial reconhecimento ao meu pai, que sempre me apoiou nestas andanças da banda desenhada (e não só), e me acompanhou em várias das visitas aos locais necessários para ambientar esta história — nomeadamente ao Estoril para visitar a Casa Verdades de Faria / Museu da Música Portuguesa, onde está depositado parte do espólio de Lopes-Graça, e à Parede para procurar a casa onde ele viveu até aos seus últimos dias — e que nesse Verão ficou a saber estar gravemente doente, tendo de ser operado de urgência, com complicações no pós-operatório que o levaram a passar pelos cuidados intensivos, e convalescença no Hospital de Santarém, cerca de dois meses que marcaram o início de um prolongado período de tratamentos, que o deixaram muito debilitado. |
























